quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O IGARAPÉ DO INFERNO, 11


 O IGARAPÉ DO INFERNO, 11

           



            Mas lentamente os Numas cercaram o Seringal. Como sombras. Fecharam o seringal nos seus próprios limites. Impediram a expansão desmesurada.



            O Seringal era imenso. Viajava-se dias, dentro dele. O Seringal teve de estacar, deter-se, refluir, limitado pela invisibilidade. Encontrou seu termo invisível.



            Os Numas eram como se não existissem. Senão pelo vazio de sua ausência. Inumeráveis, recobertos, no nenhum lugar, no não-traçado.

            Freqüentemente, estavam nas árvores e pássaros do céu.

            Mas não eram aparência, mas imanência.

            Herméticos, multiplicados, fortes.



            Sem guerrilha, possíveis mas improváveis, mitificados, solidários, violentos, irreconciliáveis.

            Prontos ao ataque. Que nunca se dava.

            Fadados a matar.



            Apavoravam.

            Eles eram pontos estratégicos, desconhecidos, na correlação de poder daquela natureza, de que eram guardiões.

            Distribuíam-se, de modo incompreensível, irregular, em focos de força. E viviam em qualquer lugar, pois eram capazes de sobreviver até debaixo da água, em bolsas de ar.



            À noite eles se disseminavam. Preparavam armadilhas nos caminhos, pequenas cobras venenosas.



            Mas eram seres frios, enevoados. Deuses que desciam para nos justiçar de noturnas culpas, olhos espalhados por toda a parte, observando.



            Às vezes deixavam-se entrever.

            Muitos seringueiros tentaram caçá-los a tiros, e por isso logo após eram mortos numa vingança fria e precisa. Eles tudo sabiam, se deslocavam rápidos. Como um sopro. Rompiam além, na nossa frente. Ou só som, se reagrupavam nos caminhos, deixando propositais pegadas, recortavam o ar com sibilantes flechas de vento, cruzavam redes de relação dentro do Seringal, infiltrados, atravessando.



            Algumas vezes chegaram ao jardim do Palácio, para afrontar.

            São homens? São fantasmas? Encantavam-se na floresta de ouro puro.



            Em sinais diziam: "estive aqui".

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