quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O IGARAPÉ DO INFERNO, 7


 O IGARAPÉ DO INFERNO, 7

           



             – Agora, vou contar pra você o que me disse Ribamar, naquela época... – e o velho, com as artríticas mãos trêmulas, bebeu um gole de água.

             Para beneficiar esta narrativa, digo que sou um homem condenado. Sim, câncer. Eu já devia ter morrido, mas a razão desta minha tomada é que, só esclarecendo isso, sei que é possível morrer em paz, compreender esse meu estilo antigo, que pode, talvez, ser capaz de descrever o inusitado quadro que se apresentará nesta minha estória.

             Esta narrativa é o meu relato da minha vida. Eu passei a vida toda de palavras de nada.

             Chamo-me de louco, e às vezes me trato na terceira pessoa, como um personagem, porque sei eu mesmo que não compreendo tudo o que aconteceu, e me vejo às vezes como um estranho louco.

             Naquele dia havia uma chuva compacta.

             Era um banco de madeira no alpendre do tapiri, ao som daquele Igarapé do Inferno... Lembro-me de que, naquele Igarapé, logo mais abaixo, na última linha que riscava o horizonte, naquela tarde... era uma diagonal tarde dourada, com a tempestade se aproximando... na outra extremidade do horizonte... como num sonho soberanizava o belo, o art-nouveau Palácio Maxini... oh, Deus, como era soberba aquela edificação, sede do Seringal, residência de Pierre Bataillon... Nós, você e eu, estamos agora num delírio, num sonho em busca daquele tempo, um tempo interdito. Estamos em busca do Palácio.

             Ostentava-se, deslumbrado, com seus múltiplos reflexos, as quinquilharias de seus espelhos de cristal, as suas inúmeras janelas e bandeiras das portas transformadas em lúcidas placas de prata rutilante ao sol.



             Você sabe, tenho vivido um tempo e vi de tudo muita coisa, viagem por muitos países, França, Alemanha, Espanha, eu louco, mas de ouro, de um ouro muito louco e muito vivo, de um brilho vivíssimo, dourado e fantasmático, delirante, desterritorializado, díspare, produzido pela acumulação primitiva de quase um século de exploração, investimento inexplicável, agenciamento de sobrepostos níveis heterogêneos de acumulação do capital, empreendimento engendrado de todo varrido do planeta, confinado ali, circunscrito ali, centrado ali, na dependência dali, da fidalguia, isolamento, anacrônico testemunho.



             Nós retornávamos à raiz da luz do nosso faustoso passado amazônico, chegávamos à brusca tarde sem sentido do Palácio.



             O monstruoso edifício ocupava a sua singularidade em todos os seus detalhes, no luxo de seu aspecto europeu.

             O Manixi (que era assim conhecida aquela construção, que depois entrou em decadência, ruína e morte, depois da quebra da borracha), Pierre Bataillon o tinha construído no meio das selvas.



             No límpido e repentino dia, o Manixi nos esperava, na imponência tranqüila dos seus pontos e ângulos, com que nos recebia na sua imoral bem-aventurança.

             Esperava-nos sobre as placas negras e primitivas das águas da origem da vida no mundo, nas curvaturas do Igarapé do Inferno.

             Naquelas águas deslizavam as riquezas das cabeceiras, perdidas, devolutas, não demarcáveis terras...

             Sim, porque tudo a fortíssima modificação daquilo tem a ver com a experiência do retorno morto, do esforço inútil, do gasto orgânico.

             O Palácio era uma edificação de dois andares, mais o porão, cercada de finos gradis de ferro torneado em convulsionadas e violentas volutas de gavinhas elegantes de efeminado contorno, travestidas, descomedidas, decoradas pela curva da escadaria de mármore, torta e enfática, escura e em pleno gozo das réplicas vilas européias.



             Me desculpe, me desculpe, mas não posso deixar de exclamar de exultar de exagerar o que era visto à distância.

             De longe já dava para ver a soberania catedralesca, que o olhar apropriava, as sacadas, os balcões de mármore, avançando no ar...


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