quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O IGARAPÉ DO INFERNO, 4


 O IGARAPÉ DO INFERNO, 4

           



            Do fundo do meu coração! Em 1923 apareceu na Amazônia um rapaz. Ribamar se chamava. Não conheceu pai. Se perdeu da mãe. Vinha do Ceará, vinha, e por isso resolveu no Amazonas à procura dos parentes seus: seu tio Genaro, o seu irmão Antonio. Ribamar desembocava em nomes, datas. Embolava vida. Só sabia isso, dois parentes no fim do mundo, trabalhadores do Alto Juruá, vindos de Jantiatuba, de lá o Seringal Pixuna, a 1.270 milhas de Manaus, onde naufragou o "Alfredo". Ribamar foi ver o afluentezinho do Rio, o Eiru, pro Gregório, o Mu, o Paraná da Arrependida, o Tarauacá, o Riozinho do Leonel, o Tejo, o Breu, o Igarapé Corumbam, o Hudson, o Paraná do Pixuna, o Moa, o Paraná dos Alumas, ou Numas, o Juruá-Mirím, o Paraná do Ouro-Preto, o Paraná das Minas, o Amônea. Foi no Paraná dos Numas que encontrou. Estavam lá! Primeiro desembarcou no Seringal Pixuna, que todos conhecem, dali partiu para o Numas, no mês de maio.



            O tio e o irmão eram aviados, sabe?, dos Ramos, e viviam porque nas cabeceiras do Paraná, na direção mesma do Igarapé do Inferno, com que se comunicasse por um furo estreito, os Ramos proprietários daquelas terras, mas sim. Como posso chamar? Varias vezes?

             Ribamar não foi bem recebido, não o vadio. Nem mesmo. Os dois pensando em voltar pro Ceara. No ano voltavam. Ribamar ali, ele era uma má notícia ruim. Ruim da terra. A merda daquela terra só dava mesmo má notícia ruim. Telegrama ali é guerra. E ali Ribamar significou: miséria e morte. Seca secada. Miséria e morte!

            Como era inexperiente, Ribamar ficou fazendo trabalhinho de casa, comida, defumação do látex. Arrumava o tapiri, o mesmo que era.



            Ah, ah, ah, quase em frente do tapiri no que trabalhava e vivia, os dias mortos, os sonhos mortos, o sono o calor, o trecho do Igarapé do Inferno mais gargalo, estreitinho, finório fundo corrido. Nunca ninguém viu passava pros outros lados, sinistros, escuros, terríveis, e lá, porque bem ali e além era o território sagrado, a região dos Numas, dos lendários seres, dos temidos, dos desconhecidos, ainda que se bem que por mais que há muitos anos os Numas andavam sumidos, desaparecidos, esquecidos, idos. Você vê? Você vê? Meu Deus! Você entende? Conforme já vai entender. Sou um velho viciado, prodre e fodido, fedendo a mijo e cagado, faltando à vida por um caminho curto curtinho, mas os Numas... voltaram! Um dia voltaram! Piores putos. O rio Pique Yaco, o Resvaladero, o Torro. Que sei eu!



            Um dia, três horas da tarde, Ribamar sentado num barranco, num toco, perto da parte estreita não se disse depois da Curva do Anil – lugar bonzinho de faveiro, dava sombra, escura e tranqüila –, aquilo era um banco de pesca, à sombra, à fresca, na boa, e Ribamar, sim ele, cismando estava quando apareceram as duas meninas nuas.



            Índias! Numas! Do outro lado do rio, ali, perto. Lá, lá entre as árvores, duas meninas Numas, quer dizer: a menor menina, ali, na beira dagua, com uma cumbuca, entrando na frescura das águas para banho silencioso e gozoso.



            Ribamar chocado! Hipnotizado! Apararição! Elas não ligaram para o jovem? – o vento soprava na direção delas, elas tinham de saber! Ribamar se abaixando, deitando-se no chão, já gozando, olhando aquilo, aquilo! E enquanto olhava foi botando asneira pra fora, era um adolescente.



            Eram meninas Numas.

            Porque a aldeia próxima, daquela vez muito próxima, na vazante, e baixavam das montanhas peruanas, por trás das passagens do ar, e vinham no piso do tapir, da anta, sempre pelo mesmo caminhar. Oh as antas, abundantes, saborosas, por aquelas brenhas, andando por lugares por onde só Numas sabiam, e aquelas belas indias no fundo verde escuro verde cré verde-amazonas verde-nada.



            E foi. Pois no depois elas se foram embora, sumiram, desapareceram entre as folhas.


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