quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O IGARAPÉ DO INFERNO, 17


O IGARAPÉ DO INFERNO, 17

      



                       – Sim, vida, vida. Fecundada vida! Erotizada vida! Mas vida é o que peço nesses meus últimos momentos. Pois pois foi a vida, da vida, ela que me fez viver durante tanto tempo neste meu corpo hoje tão perto da morte. O quê? Sim sim, mas ainda posso viver muitos anos... muito mais do que você, menino! Ainda sinto, ainda sinto. Mas sinto. Se aperto doem. Isto tudo vai acabar comigo, um dia desses, vai. O novo remédio está atuando. Mas não se assuste, menino, ainda estou vivo e continuo contando e terminando, ah, ah, ah, não. A vida é minha, a noite é minha, com as estrelas. Passo as noites fora, sabe, depois que você dorme, eu saio. Ninguém me controla. Não! Eu quero e mereço. São talvez nas últimas noites de minha vida, talvez, mas as quero, as mereço, eu as quero e mereço. Gosto de andar, sobretudo de noite. Nas ruas escuras e desertas.



                     Eu estou morrendo e vem você perguntar se não tenho medo de ser assaltado!



                     Conto é continuo. Conto. Como no meu Amazonas. Como naquele dia do ataque dos Numas à aldeia Caxinauá. Mas tenho de atar as peias para poder explicar umas coisas fundamentais. Estou confuso. Sim, sim...



 



                     “Querida mamãe:



                     “Um fato extraordinário aconteceu: meu patrão, aquele velho que eu disse para a senhora que estava para morrer, de repente melhorou com um novo remédio e já sai de casa sozinho e à noite, sem que ninguém saiba para onde ele vai.



                     “Dizem até que ele vai visitar uma casa de mulheres, que está aqui perto, ou que ele voltou a beber nos bares que ficam abertos por aqui.



                     “Ele é muito corajoso, pois a Lapa é muito perigosa durante a noite e ele tem chegado por volta de 3 horas da manhã, e aí passa quase todo o dia dormindo.



                     “Mas ele me disse que vai continuar a me contar aquela estória que eu estou gravando para ele, chamada “O igarapé do inferno”.



                     “Eu fico preocupado, pois se ele parar de gravar eu fico sem ter o que fazer no apartamento, e posso perder o emprego.



                     “Ninguém sabe o que ele vai fazer, se continuar a melhorar com o novo remédio que está tomando.



                     “Espero que a senhora esteja bem, junto com todos.



                     “João Manuel”.


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