quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O IGARAPÉ DO INFERNO, 15

O IGARAPÉ DO INFERNO, 15
      

                       – Você conheceu Antônio Ferreira? Sim, sim. Ele era casado com a filha do Comendador Gabriel Gonçalves da Cunha. O velho suspirou. E depois continuou: Ele esteve no Manixi. Para quê? Ninguém sabe. Eu acredito que ele queria comprar o seringal. Ai, ai, meu filho. A vida é um horror! Não, não nunca queira ficar velho, minhas costas doem, nunca se deixe ficar velho, mate-se antes. Não é um horror? Mas a vida sim. A vida dele não não foi errada não. Ferreira era sempre ele. O homem mais elegante do Brasil. Alto, forte, rico, bonito. Jogava golfe, montava, gostava de cavalos e de carros. Nunca precisou lutar por nada para si, tudo, tudo lhe veio às mãos espontâneas. Casou-se, ficou rico. Dizem que nasceu pobre, não sei. Ele era um tipo branco, dentes bonitos, vivia sorrindo. Tinha um sorriso fixo e fácil. Meio arrogante, talvez, mas na justa medida de um príncipe. Com aquela imensa fortuna a seus pés, Ferreira continuava assim, jovial e forte. Nunca teve barriga, nunca perdeu os cabelos. Lembro-me dele jovem. Na moda. Usava uma pulseira de prata no braço. Poderia passar por pastor, ou padre, ele era assim. Educado, sempre asseado, limpo, roupas apropriadas. Manaus era uma cidade pequena, todos o conheciam. Quando ele passava todos o reconheciam. Vivia no Ideal, no Bosque, no Siroco. Exibia-se ali, desfilava pelas ruas principais. Nunca me esqueço: ele tinha um sapato marrom quase vermelho sempre bem polido, sem cadarços. Foi o primeiro sapato sem cadarços que vi. Ponta fina, sem cadarços. Em lugar de cadarços havia uma faixa de couro em diagonal. Aquilo era muito fino. Ele usava quase sempre as mesmas roupas, pois tinha poucas, talvez. Mas aquelas roupas eram sempre muito bem passadas, e como ele era um manequim, ombros largos cintura fina, era perfeito. Nunca vi um homem tão elegante quanto Antonio Ferreira. Nunca teve de arrancar o pão da vida com esforço. Nem vida trabalhosa, doença, coisa assim. Tinha sempre boas maneiras, educação de base. Namorou a Maria da Glória porque ela era a menina mais rica do Norte do país. E ele era a última moda, um jovem advogado com etiqueta profissional recém-revelada na cidade de Manaus. Foi ao Manixi no Comendador, um belo navio, comprido barco branco. Pertencente ao rico Comendador Gabriel Gonçalves da Cunha, pai da Glorinha, a Maria da Glória, mulher do advogado. O Comendador, muito branco, contrastava com as várias tonalidades do verde e azul, ao derredor, do verde-musgo craquelê, dos cipós-de-cobra, do esmeralda, ao cobalto das águas, à cobertura azul do céu.
                      O advogado rindo, como sempre. Agente e sucessor dos negócios do riquíssimo velho Gabriel. Parecia um menino, mas alto, altíssimo para a terra, 1,82 m de altura. As mãos delicadamente tratadas, cabelos lisos, negros. Os cabelos caem sobre aros de ouro dos óculos escuros. Terno de cambraia, chapéu Panamá, sapatos bico fino. Pretos. Um dândi perfeito ao sol, as formas do corpo forte aparecendo por debaixo da fazenda fina, pernas longas, fortes. Os olhos brilhantes, jovialidade, educação e alegria, enérgica fantasia sublinhada pelo sorriso categórico.

                      Você sabe o que é a vida?

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